O Segredo de Brokeback Mountain - Análise

O Segredo de Brokeback Mountain - Análise- Post Site André Kummer
O Segredo de Brokeback Mountain com Heath Ledger e Jake Gyllenhaal


O filme O Segredo de Brokeback Mountain, vencedor de 03 Oscars, produzido nos EUA, em 2005, com direção de Ang Lee, autor de O Tigre e o Dragão apresenta os principais atores: Heath Ledger (Ennis Del Mar), Jake Gyllenhaal (Jack Twist), Michelle Williams (Alma), Anne Hathaway (Laureen) e Randy Quaid (Joe Aguirre).


O livro Curto Alcance, de Annie Proulx, lançado pela Editora Intrínseca, recentemente no País, inclui o conto que deu origem ao filme. A autora em sua obra revela a terra dos caubóis, cujo território divide-se entre as paisagens deslumbrantes que remetem ao imaginário do western e as pequenas cidades onde circulam vaqueiros, motoristas de caminhão e gente que vive do turismo.

Para o escritor, Michel Laub, que escreveu sobre este livro de Proulx, onde o lema por toda parte dos contos é: “você que cuide da porra da sua vida”. Famílias que se desintegram, velhos que acabam sozinhos, mulheres enlouquecem isoladas em fazendas, mas que ainda tem braços para trabalhar seguem enfrentando invernos terríveis, desemprego, etc...

Para Laub, a brutalidade e a poesia, tão antagônicas, convive muito bem neste livro.

O filme conta a história de dois jovens que se conheceram no verão de 1963, numa montanha isolada, na região de Wyomong/EUA, iniciando um relacionamento amoroso. Ambos trabalham no rancho de propriedade de Joe Aguirre e cuidam de um rebanho de ovelhas e durante os anos que passam, lutam, secretamente, para manter a relação e o sentimento que nutrem um pelo outro.

O personagem Ennis Del Mar é um rapaz muito tímido e introvertido. E depois que seus pais morreram, em decorrência de um acidente de carro, ele foi criado pelos irmãos mais velhos. Seu objetivo, agora, é receber o dinheiro de seu trabalho nas montanhas, voltar para sua cidade e casar-se com sua noiva, Alma, tão logo o verão acabe.

O trabalho nas montanhas é muito difícil, considerando o perigo do ataque dos ursos, dos coites e, também, o vento frio que sopra das montanhas.

Pouco conforto, pouca comida e muito trabalho. É neste cotidiano vivido num lugar árido e selvagem que Ennis começa a desenvolver uma amizade, baseada na confiança e empatia, que vai crescendo aos poucos, por seu colega Jack Twist, que trabalha no local, pelo segundo ano seguido.

Jack é um rapaz de sorriso facil e o seu trabalho é no circuito de rodeios, no Texas. Mas, durante o verão, tem outro emprego, como temporário, cuidando das ovelhas de Joe Aguirre.

Vivendo isolados por semanas, eles se tornam cada vez mais amigos e numa noite fria, com pouco cobertor, eles resolvem dormir juntos na barraca, depois de beber muito uísque para se aquecerem.

Desta forma, surge o inesperado, o desejo que vem arrebatador, que aniquila qualquer raciocínio, pensamento ou censura. São traídos pelo próprio desejo que sentem um pelo outro, que cresce como o fogo, que só vai se extinguir, quando a luz da manhã surge, despertando os caubóis para outro dia de trabalho.

Após este episódio, nasce um amor mútuo entre eles, que será compartilhado durante os próximos 20 anos, com intervalos irregulares.

Eles continuam se encontrando nas montanhas de Brokeback para “pescar”. Ao mesmo tempo, casam-se e formam família.

Jack lança sua sorte nos rodeios e acaba encontrando sua futura e rica esposa.

Ele e Laureen acabaram se casando e como consequência, Jack vai trabalhar na empresa do sogro. Mas, o rapaz percebe que há muitas diferenças entre ele e a esposa, somando-se à chegada do bebê.

Com o passar do tempo, o casamento vai de mal a pior, considerando que Laureen só se ocupa do trabalho, vendendo tratores e material agrícola, na empresa do pai. E segundo as palavras de Jack: “Laureen nasceu para contar dinheiro e não para casar e amar um homem”.

Ennis Del Mar casa-se com Alma e tem duas filhas. Depois, ele fica desempregado e sua situação financeira fica muito ruim, o que acaba prejudicando a relação do casal. Com o marido desempregado, Alma vai trabalhar como balconista num supermercado e Ennis tem que cuidar das crianças e as brigas começam. E com o passar do tempo, Alma começa a perceber algumas mudanças no comportamento do marido.

Ennis começa a receber as visitas de Jack e a suspeita de Alma se concretiza quando ela encontra um cartão de Jack enviado a seu marido, com declarações de amor e depois flagra os se beijando.

O casal se separa e Ennis se afunda no trabalho. Depois, arruma uma namorada, com o intuito de se livrar do amor que sente por outro homem.

Enquanto isso, Jack tem a expectativa de que a situação se resolva entres eles e tenta convencer o companheiro a partir com ele, para uma fazenda onde moram seus pais.

Ennis não aceita a proposta de Jack e, depois deste encontro, algo terrível pode acontecer. Ao término do verão, cada um segue sua vida, mas o período vivido naquelas montanhas de Brokeback irá marcar suas vida para sempre.

Para o Professor da USP e colunista da Folha de São Paulo, José Arthur Giannotti, neste filme: “A dificuldade é que não conseguem lidar com as categorias que lhes impõem o tempo e o espaço o que evidencia a falta de horizontes em que se encontram os personagens” (março, 2006).

Desde o início dos tempos, a sexualidade humana despertou intensas reações nas culturas, como se fosse portadora de perigo e trouxesse o risco de desagregação.

As religiões e a moral social, em todas as suas formas, mostravam-se imbuídas da necessidade de domar o “perigo”. Por meio de ritos e punições severas procurando enquadrar a sexualidade dentro de certos limites e com a finalidade reprodutiva.

Mas Freud (1856-1939), por meio de seus estudos sustentou a ideia de que a sexualidade no mundo humano, de uma forma geral, não tem uma relação direta com o objetivo biológico da reprodução e, também, não está restrita à esfera genital, abrangendo formas bem mais diversas da experiência humana.

Em 1905, quando tinha 49 anos, escreveu a obra: “Os três ensaios sobre a teoria da Sexualidade”, em que postulava que nada está predeterminado por um esquema normativo inato. Suas descobertas decorreram a partir de si mesmo e quando passou a analisar seus próprios sonhos, como o seu método psicanalítico. Daí descobriu o desejo sexual da criança pela mãe e a hostilidade contra o pai, ao que denominou de complexo de Édipo, uma inspiração na tragédia grega de Sófocles, autor clássico que viveu de 496 a 406 a .C.


O DESEJO SEXUAL E O MITO DE ÉDIPO

A lenda começa quando Édipo, príncipe de Corinto, é insultado por um bêbado, que o acusa de ser filho ilegítimo do Rei Políbios. Embora o próprio Rei tenta tranquilizar Édipo de que ele é o seu pai, o príncipe recorre ao Oráculo de Píton, mais tarde conhecido como Delfos.

O oráculo vaticina que Édipo está destinado a matar o pai e casar-se com a mãe. Como ele não tem a menor intenção de deixar que isso aconteça, Édipo foge de Corinto e vai para Tebas. E aí começa a tragédia. Esta lenda retrata a impotência humana diante do seu destino. (Stephanides, p. 45, 2001)

Para o psicanalista J. D. Nasio, a lenda de Édipo explica a origem da identidade sexual de homem e mulher e, além disso, a origem de nossos sofrimentos neuróticos porque essa lenda envolve todas as crianças, o complexo de Édipo, nenhuma criança escapa.

Freud percebeu este tema, também, na peça de Shakespeare, Hamlet, escrita a 2 mil anos depois, constatando a universalidade do tema, ou seja, do amor infantil pelos genitores.

A sexualidade infantil, proposta pelo médico vienense é chamada de “perversa polimorfa”, porque sugere uma plasticidade e uma enorme diversidade daquilo é capaz de propiciar o desejo sexual, e também muito diferente do desejo sexual do adulto.

A satisfação do bebê ao mamar, as sensações ao toque, realizadas pelo outro ou por si mesmo, em qualquer parte de seu corpo. A sexualidade existe desde o nascimento e está presente não só nos jogos sexuais com outras crianças, mas também na relação com os adultos, principalmente com as figuras parentais. (Viorst, p. 18, 2005)

Na libido do adulto, o apetite erótico é transformável e graças à sua plasticidade, pode tomar infinitas formas.

Freud denominou a pessoa ou o que quer que seja que exerça atração de “objeto sexual” e aquilo que quer fazer com ela de “objetivo”. O objeto não precisa ser necessariamente uma pessoa, como por exemplo, no fetichismo pode ser o pé, um sapato, uma peça de roupa.

A teoria freudiana aproxima-se das formas consideradas normais de contato sexual, comparando o fetichismo com modalidades de contato excitantes como o beijo, o toque, o olhar, etc.

O desejo por pessoas do mesmo sexo, como a homossexualidade, implica muitas variações, até na mesma pessoa, ao longo da vida, como decorre com os personagens neste filme.

Freud nos aponta também como ocorre a luta interior no homem, no que se refere à sexualidade, quando persiste dentro dos limites do sujeito os desejos marginais, os mesmos que os heterossexuais expulsam quando surgem seus desejos eróticos por indivíduos do mesmo sexo.

Os estudos de Freud nos revelaram que o desejo por alguém do mesmo sexo não exclui um período da vida em que houve um intenso desejo pelo sexo oposto. O desejo se mantém vivo nos sonhos e nos sintomas, de forma ativa, embora inconsciente, podendo surgir a qualquer momento. E as fantasias sexuais por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto emergem na transferência e nos sonhos, ao longo dos processos de análise, mostrando que um e outro fazem parte do repertório de desejo de todos.

A sexualidade humana não admite todas as possibilidades eróticas descobertas por Freud, por isso, parte delas fica reprimida, submersa no inconsciente, recalcadas e fora do perímetro da consciência.

Em sua obra Cinco Lições de Psicanálise, de 1909, Freud salienta que “em matéria sexual os homens são em geral insinceros porque não expõem a sua sexualidade francamente, saem recobertos de espesso manto, tecido de mentiras, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrível no mundo da sexualidade. E não deixam de ter razão; o sol e o ar em nosso mundo civilizado não são realmente favoráveis à atividade sexual”.

Todos os jovens tiveram oportunidade de serem homossexuais e não é somente uma questão de oportunidade e sim o resultado dessa delicada combinação entre possibilidades externas e disposições internas, pré-moldadas na infância. Cristalizada essa constituição da identidade sexual na vida adulta, o indivíduo terá a oportunidade de modificá-la parcialmente. Não de transformá-la por completo e é por esse motivo que não se pode impor a alguém que seja ou deixe de ser homossexual, é necessário respeitar o que se é

A forma como cada um vive a sua sexualidade faz parte da identidade do indivíduo a qual deve ser compreendida na sua totalidade. Mas, infelizmente, a sociedade ainda está muito longe desta compreensão para poder eliminar os problemas decorrentes dessa atitude e quase todos ligados ao preconceito manifesto em diversos níveis, haja vista, as agressões que os homossexuais sofrem nas ruas de São Paulo e em outros lugares do mundo.

A principal arma usada pelos que discriminam, deriva exatamente da tendência humana em tipificar tudo que é diferente como uma anomalia, uma patologia. A homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão, conforme nos orienta a Psicanálise.

Em seu texto Os três ensaios..., Freud se opõe à tentativa de separar os homossexuais como uma espécie particular de seres humanos. Na medida em que estuda outras excitações sexuais, ele sabe que todos os homens são capazes de eleger um objeto do mesmo sexo e, ainda, que o realizam de forma inconsciente.

O homem não cede ao instinto, mas o usa para criar o desejo, constituindo-se desse modo enquanto humano. O desejo ultrapassa as determinações biológicas e as submete às determinações psíquicas (Revista Viver Mente & Cérebro, abril, 2006).

Segundo José Euclimar Xavier de Menezes, nas sociedades uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes das normas estabelecidas dificulta a aceitação dessa opção sexual (2000).

O personagem Ennis Del Mar, por exemplo, é vítima do próprio preconceito e da falta de entendimento do que realmente se passa na sua intimidade. Sente-se culpado e envergonhado e busca, às vezes, desesperadamente, eliminar sua conduta sexual, mas fracassa em sua tentativa. Quando Jack o procura, ele tem ao seu alcance tudo de que necessita e não sabe como lidar com a situação, e esta é a sua condição angustiante, da estrutura neurótica de homem dividido e fraturado. Apega-se em seu estofo viril, forte e masculino, de que tanto necessita para se proteger, tornando-se agressivo. Ele não consegue dominar sua própria agressividade e, consequentemente, vive o lado sombrio da masculinidade, o negativo, o lado preconceituoso e covarde.

A questão é o seu ego vir a tornar-se forte o suficiente para não ser vencido pelo próprio preconceito; é usar o poder de sua masculinidade para propósitos conscientes, ou seja, tanto na batalha interna, aceitando sua opção sexual, quanto na externa, enfrentando os preconceitos sociais. Precisará ser capaz de reunir e dirigir suas energias masculinas, pondo de lado sua covardia e desejo de ser sempre protegido pela inércia, pela força da indecisão.

Atualmente, a grande dificuldade de exercer a sexualidade nos indivíduos, aparece nas experiências amorosas fragmentadas, diluídas na ausência do reconhecimento de ser o que é, em contato com o outro, independente da opção sexual. Isso evidencia o medo de perder os limites internos, porque a sexualidade é a nossa demarcação e a nossa inserção no mundo, e que a identidade e a sexualidade se misturam no indivíduo.

Para Freud, somos como corpos celestes, seres sociais e giramos ao redor dos outros e das nossas necessidades, pois precisamos do olhar do outro, como do olhar da nossa mãe, quando somos criança, porque vai nos auxiliar na construção de nossa identidade. Mas, nossa sexualidade não só se reduz a isso, é também permeada por sensações, sentimentos, paixões, fantasias, medo e culpa.

Independentemente da opção sexual, o amor quando chega como uma tempestade une os amantes, seja pela via da sexualidade, do desejo, seja pela via da matéria, segundo a qual somos construídos, conforme o filósofo grego propôs, considerando todas as coisas como resultantes da fusão dos quatro princípios eternos e indestrutíveis.

Neste filme, o diretor desvela o amor, associando-o aos movimentos dos personagens com a natureza, com o tempo e suas tempestades. Daí o cenário com as lindas montanhas. As mudanças no tempo são usadas como metáforas dos momentos vividos pelos caubóis, cujos sentimentos oscilam entre o desejo e o medo de amar. E como na lenda de Édipo, ocorre também o medo da ocorrência de situações improváveis.

Para o filósofo Bertrand Russell (1872-1970), em sua autobiografia, escrita em três volumes, nos finais da década de 60 comentou:



“Procurei o amor, primeiro porque ele traz o êxtase, um êxtase tão imenso que muitas vezes eu teria sacrificado o resto da vida por algumas horas desse prazer. Procurei-o depois porque alivia a solidão, aquela terrível solidão, onde o consciente, trêmulo e frio olha por sobre a borda do mundo para o abismo gelado e insondável. Eu o procurei finalmente, porque vi na união amorosa, numa miniatura mística, a visão prefigurada do céu que santos e poetas imaginam”.


Referência bibliográfica:

1) FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade. Obras Completas, vol. II, Editora Imago, 1969.

2) Jornal A Folha – 12/3/2006 e 28/04/2007.

3) MENEZES, José Euclimar Xavier de. Fábrica de deuses. A teoria freudiana da cultura. São Paulo: Unimarco Editora, 2000.

4) NASIO, J. D. Édipo - o complexo que nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

5) PROULX, Annie. Curto Alcande. São Paulo: Intrínseca, 2007.

6) Revista Viver Mente & Cérebero – abril de 2006.

7) STEELE, Valerie. Fetiche: moda, sexo & poder. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

8) STEPHANIDES, Menelaos. Édipo. São Paulo: Odysseus, 2001.

9) VIORST, Judith. Perdas necessárias. São Paulo: Edita Melhoramentos, 2005.

10) Filme: O Segredo de Brikeback Mountain - DVD– drama – color – 135 min. – diretor: Ang Lee - 2005.

Originalmente em faroartesepsicologia

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