Quando Peter Pan cresce

Quando Peter Pan cresce por André Kummer
@alifranco_art

Quem quiser tentar me transformar em um homem, me pegue, se conseguir. Eu não vou crescer!!

Peter Pan 
Alan Downs é um psicoterapeuta e autor do livro 'The Velvet Rage: Superando a dor de crescer como gay em um mundo Heterossexual'. 

Ele fala no prefácio do livro como deixou de ser um gay autocentrado: 

"Como Peter Pan, eu me alegrava com as minhas maneiras de menino e teimosamente me recusava crescer. Eu tinha apenas dois objetivos em mente: ganhar dinheiro, e dormir com tantos homens quanto possível." 

Muitas vezes nos tornamos o centro do nosso próprio mundo, onde os outros são acolhidos se podem nos fazer sentir bem. Tão logo nossa boa vontade com eles acabe nos tornamos babacas e ainda ficamos contrariados porque não encontrava um relacionamento. Assim é Peter Pan. 

Durante muitos anos Alan Downs foi um psicólogo corporativo com gosto por uma vida cara que odiava seu trabalho, mas presumia que todos os outros também odiavam os seus. 

Quando foi diagnosticado com HIV começou uma profunda reavaliação de sua vida. Abandonou o trabalho no mundo corporativo e tentou tornar-se escritor.

Sentiu profundamente a rejeição da sua família por ser gay, mas encontrou contentamento ao fazer trabalho voluntário em uma Organização que prestava apoio e aconselhamento para os doentes com AIDS e suas famílias. 

"Eu sentava junto à cama de um paciente, e falávamos sobre a vida, amor, família, e morte. Mesmo no mais escuro desses encontros eu podia sentir a profunda gratidão deles porque alguém tinha tirado um tempo para ouvir suas histórias. Eu sentia um humilde e permanente contentamento por estar ali."

Descobrir o contentamento, ele afirma, foi o que o amadureceu. 

"Às vezes imagino, em minha própria fantasia heróica, que eu descobri o segredo para uma vida gratificante e a mudei radicalmente para melhor. Mas se for honesto, não o que é realmente aconteceu. A verdade é que eu tive que me empurrar tanto fisicamente quanto emocionalmente para além de qualquer limite razoável. Eu estava cansado, chateado, e com medo do meu futuro, mas tinha mais medo ainda de morrer sem ter realmente vivido." 

Vivendo sozinho, lutando financeiramente para pagar as contas, aceitou um trabalho como diretor clínico para um pequeno programa de tratamento de drogas e álcool.

"No meu primeiro dia de trabalho me deparei com uma estrada de chão que terminava em um estacionamento cheio de poeira ao lado de uma casa móvel que seria meu escritório. Enquanto eu caminhava pelo quintal, meus brilhantes sapatos Prada preto desapareceram nos montes de pó fino que parecia cobrir tudo. Eu chorava sem lágrimas enquanto abria a porta quebrada que dava para uma sala de espera coberta por um tapete gasto de uma cor que era praticamente indistinguível sob o pó vermelho acastanhado do exterior." 

Foi ali, sozinho na pequena casa móvel em um esquecido vilarejo, que encontrou o contentamento.

"O contentamento são momentos de clareza que às vezes surgem em sessões com clientes que colocam para fora sua dor , sua ansiedade e caos, e uma compreensão surge. Experimentei momentos de alegria tranquila e contentamento de ver meus clientes crescerem e encontrarem alívio para o cansaço e a dor que tinham atormentado muitos deles desde quando eram crianças. Foi a mesma sensação que tinha conhecido enquanto está sentado cabeceira com pacientes de Aids anos atrás. Desta vez, no entanto, eu era diferente." 

Para Downs o contentamento e a alegria na vida não vem de nossos sucessos, mas do modo como vivemos a vida. 

Ele diz que homens gays demoram mais na adolescência porque estão fugindo da vergonha de ser quem são, e muitas vezes nunca saem da adolescência. Mas também afirma que o processo de amadurecimento é o mesmo para heteros e gays e ocorre no momento em que você se torna determinado a manter o que realmente é importante na vida e que não tem nada com sapatos Prada. 

"O sorriso no rosto de uma mãe que finalmente tem seu filho de volta do poço escuro de heroína ou o casal que começa a ver uma nova maneira de amar quando eles pensavam que não fosse mais possível. Andar com meu cão ao lado do rio. O toque de um homem que me ama sinceramente e cujo rosto mostra conteúdo do seu coração em vez de apenas sua beleza física. A voz de um bom amigo quando nós não falamos por dias, uma boa música... Essas coisas me trazem alegria e contentamente." 

Muitos homens gays com quem eu trabalho vivem como eu também vivi: sendo Peter Pan. Eles são talentosos, competentes e motivados, mas estão presos em uma adolescência emocional. Ganham dinheiro, criam uma vida bonita, cheia de amigos e amantes, comem nos melhores restaurantes como se isso fosse o principal da vida.

A verdade é que o efeito traumático de crescer em um mundo onde nós devemos esconder a verdade sobre quem somos e os nossos mais fortes sentimentos faz com que nosso desenvolvimento pare.

Nós não somos capazes de ter uma adolescência tranquila onde experimentamos quem somos sem receber críticas daqueles que nos rodeiam e que deveriam nos ajuda a criar um ambiente seguro para nossa identidade.

Em vez disso, devemos nos esconder e apresentar ao mundo uma versão fabricada de nós mesmos até o dia em que podemos ser livres para expressar a nossa sexualidade e sair do armário. 

Muitos de nós vivem em uma adolescência tardia que persiste por décadas até que aprendem as habilidades que permitem atravessar a passagens entre a adolescência e maturidade. 

Levou mais de duas décadas para o Peter Pan em mim crescer e se tornar um homem. Eu descobri que não era mais um menino quando me senti contente. Não há nenhum grande momento "ah-ha", nenhum livro de leitura obrigatória, nenhum professor para ensinar. O contentamento, ao que parece, é o uma coisa que permanece fora do alcance de um adolescente. 

Sou frequentemente questionado como um homem gay termina com as suas lutas internas e se torna capaz de viver de forma saudável com sua sexualidade.

Respondo, assim como Downs, que é quando aprendemos sobre estar contentes com quem somos, com o que conquistamos e com quem está ao nosso lado. E isso tudo são escolhas.