O seu cérebro não é tão racional quanto parece: A influência dos vieses cognitivos por Ana Beatriz Rosa

O seu cérebro não é tão racional quanto parece - andrekummer.com.br
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No cérebro, ao menos 200 vieses cognitivos influenciam nosso comportamento.


Como criamos significados? Por que atribuímos sentido a determinadas experiências e a outras, não? Quando um fato consegue, de verdade, desconstruir um argumento? Estamos preparados para tomar a decisão mais correta?

É difícil aceitar, mas talvez o seu cérebro não seja tão racional assim quanto você pensa.

Pode até parecer clichê, mas em alguns processos de decisão e tipos de pensamentos, nós somos o nosso pior inimigo. Isso porque, de acordo com o nosso funcionamento cerebral, há, pelo menos, 200 vieses cognitivos que influenciam quem somos, o que decidimos e por que reagimos de certas maneiras.

"O nosso cérebro não busca a perfeição, ele busca a suficiência. E para isso, temos os vieses, que são espécies de atalhos criados pelo cérebro para otimizar e facilitar os nossos processos", explica o neurologista Fabiano Moulin, formado pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp e especialista em neurologia da cognição e do comportamento.

Os vieses cognitivos existem por uma razão bem simples: poupar tempo e energia dos nossos cérebros. Eles auxiliam a lidar com a sobrecarga de informações, com a falta de significado, com a necessidade de agir rápido e até mesmo com o discernimento do que precisamos guardar na memória ou não.

Mas eles se tornam perigosos, por exemplo, quando nos impedem de enxergar uma realidade mais ampla ou até mesmo de encarar uma mudança não desejada.

E o primeiro passo para encarar esses "atalhos mentais" é ter a consciência sobre eles. Em entrevista ao HuffPost Brasil, Fabiano Moulin comenta sobre as evoluções - e trapaças - do nosso cérebro. Leia os principais trechos:

Muitas vezes achamos que o nosso cérebro é uma máquina perfeita., e a primeira ideia que tem que ser desconstruída é a ideia de perfeição. A natureza não se preocupa com perfeição, mas se preocupa com suficiência. O nosso comportamento, a nossa construção de realidade tem que ser suficiente para que permita a nossa sobrevivência - alimentação, socialização etc. Exatamente para facilitar isso, ou seja, para otimizar os processos, é que existem atalhos e curto circuitos que o cérebro cria. São os vieses. É como se fosse um resumo um pouco arbitrário, um pouco rápido, do nosso cérebro que a depender de uma determinada circunstância ele naturalmente vai te inclinar uma solução, mesmo que não ela seja perfeita. Isso acontece principalmente quando a gente fala de planejamento e tomada de decisão. Esses atalhos podem tornar o nosso comportamento e a nossa tomada de decisão irracionais.
O que os vieses nos ensinam é que a inconsciência não é aleatória, pelo contrário, ela tem regra. Mas a regra não é sempre racional. A razão que a gente toma tanto como importante, como a rainha do cérebro, não passa de um coadjuvante bem sem graça.

A percepção que eu tenho do mundo é construída. Você está sentada na sua cadeira e está observando o mundo. Mas na verdade você não está vendo "o mundo". O seu cérebro está transformando uma determinada frequência de ondas eletromagnéticas, que é o quanto a gente consegue enxergar, em um código neural e, a partir disso, é que ele constrói essa realidade. Se você pegar um outro animal que enxerga uma outra frequência de onda, o cérebro dele vai processar outro mundo diferente. O mundo não é uma percepção passiva. A gente constrói o mundo como ele é. Isso vale para a nossa visão, a audição, o tato, ou seja, para a realidade como um todo.

3 tipos de viés para você entender a sua mente


Viés da conformidade: Esse viés nos leva ao "pensamento de manada". Mesmo que a decisão do grupo seja diferente da minha, eu tendo a acompanhá-lo.


Viés da confirmação: É a nossa tendência de buscar informações ou interpretá-las de uma forma que confirme nossas concepções ou crenças pré-existentes.


Viés de ancoramento: A nossa tendência é sempre a de confiar em nossas primeiras impressões, daí os estereótipos e preconceitos.

E como criamos os sentidos para cada experiência? O nosso cérebro funciona como uma espécie de filtro da realidade dos fatos?

Já é possível criar novos sentidos. Um pesquisador desenvolveu um sensor de tato, mas que vibra de acordo com a fala das pessoas. Ele colocou esse sensor em pessoas surdas. A partir da vibração cutânea, as pessoas começaram a compreender as mensagens que as pessoas estavam querendo dizer verbalmente. O olho, o ouvido, o nariz e a boca são apenas algumas das maneiras que o cérebro tem para interagir com o ambiente e construir uma realidade. A gente não pode esquecer que isso é uma construção.

Os vieses são construídos há muito tempo, hoje já reconhecemos cerca de 200 deles. Esses atalhos foram selecionados em algum momento porque foram evolutivamente benéficos. Mas atualmente, eles costumam nos dar bastante trabalho.

Vivemos com muitas diferenças que antes não percebíamos, dividimos o mundo com uma quantidade enorme de pessoas que não seria possível em outras épocas. E isso acaba assustando. Aquilo que a gente chama de preconceito, da separação entre os grupos aos quais eu pertenço e me identifico e aqueles de quem eu quero me manter afastado, tem influência dos vieses também.

Desde que somos crianças nós já lidamos com os vieses. A cultura pode exacerbá-los, mas nós nascemos assim. Há uma resistência natural do ser humano em relação às mudanças.

Vamos tomar uma discussão como exemplo. Eu te apresento fatos que são novos para você e que, de alguma maneira, vão contra argumentos que você já tem bem estruturados. Você até acha que criou esses argumentos de uma forma racional, porém, muitas vezes esses argumentos são adquiridos, simplesmente absorvidos por você. Quando você tenta discutir racionalmente sobre cada um deles, as pessoas não conseguem. Aí vêm a emoção e a agressividade, os comportamentos que tentam nos proteger de cada uma dessas situações. O nosso cérebro está programado para isso.

Mas é possível "desmascarar" ou tentar frear essas pegadinhas do cérebro?

O mais importante é discutir sobre esses atalhos. A gente precisa entender em quais momentos eles atrapalham a nossa vida e tentar criar regras sociais que minimizem isso. É interessante ver o quanto a razão consegue de verdade influenciar o cérebro e entender o quanto isso é muito pequeno. Como pesquisadores, a comunidade tenta expor o conhecimento e educar para as circunstâncias que vão além do viés.

O viés não é ruim obrigatoriamente, ele só precisa ser percebido para a gente entender quando ele tá atrapalhando a nossa vida.

E o que são as falsas memórias? Como elas funcionam?

O nosso presente, que é a percepção e a ação, não é muito real, ou seja, a gente acaba construindo isso. Quando a gente fala do nosso passado, que é a memória, é a mesma coisa. Toda vez que você lembra de um assunto, você está recriando aquele assunto ou aquele fato. A nossa memória não é uma câmera fotográfica ou um vídeo, muito pelo contrário, ela é totalmente influenciada. Você consegue tanto apagar, quanto criar coisas na sua memória. A gente consegue criar memória, literalmente, com todos os bichos que a gente estuda, seja um rato, uma pomba ou um ser humano.

Isso pode ser um problema, porque a memória pode ser manipulável. Quando você manipula a história contada, você a refaz. Você refaz aquilo em que você acredita. Mas essas histórias/memórias que a gente conta para a gente mesmo são essenciais para a nossa existência, para nos dar algum propósito. E o fato dela ser tão falha é assustador.

A memória é quase uma piada no sentido do quanto você pode confiar nela. Aí a gente volta para aquela primeira ideia de que não há interesse por parte do cérebro em se alcançar a perfeição, mas sim a suficiência.

Existem casos onde a memória é perfeita, se chama a hipermnésia. Mas o cérebro não dá conta disso. Por exemplo, em nossa conversa agora, de tudo o que eu estou te falando, as palavras importam menos que as ideias. As pessoas com memória perfeita poderiam citar todas as palavras que eu disse até agora, mas sem entender nenhum conceito do que eu falei. Há uma troca aí. Ou você entende o superficial, cada letra, a sintaxe, ou você entende o conteúdo. Socialmente, essas pessoas são prejudicadas. A memória precisa ser imperfeita e apagar certas coisas para a gente sobreviver, senão o cérebro não consegue dar conta das outras atividades.
A memória é quase uma piada no sentido do quanto você pode confiar nela.

O nosso sistema nervoso não é único e já evoluiu muito desde que as primeiras espécies de animais foram estudadas. É possível imaginar que, no futuro, teremos um sistema nervoso ainda mais complexo? Como isso implicaria na nossa percepção da realidade?

No último século, estamos olhando mais para as questões do nosso cérebro e como isso nos influencia. Mas nós sempre convivemos com essas imperfeições.

Quando a gente tenta, individualmente ou culturalmente, tomar a decisão mais clara do mundo, ou perceber os nossos próprios preconceitos, as nossas imperfeições também influenciam nesse processo.

Vivemos em uma sociedade em que nunca antes o poder da influência foi tão discutido. A gente está vendo que para chegar nessa nova configuração social, esses entendimentos sobre os nosso vieses, nossas imperfeições e nosso processos de pensamentos fazem toda a diferença.

Quanto mais a gente refina as nossas relações sociais, mais claro fica que a gente vai ter que entender muito bem como o nosso cérebro funciona para que socialmente a gente possa funcionar melhor. Tem dado certo até agora, não é? Nós somos seres adaptáveis, nós vamos continuar nos adaptando.

Ao questionar como o nosso cérebro funciona, a gente está discutindo como a gente constrói a nossa realidade, como a gente cria a nossa história de vida e a importância que isso tem para os outros.
Isso não é só uma questão teórica, mas uma questão de quando nós vamos começar a agregar essas perspectivas à nossa realidade. Porque a realidade é um todo. A gente filtra o tanto que é suficiente para a gente. A realidade é complexa, a gente resume, tende a acreditar que ela é só isso, mas se surpreende bastante toda vez que descobre que ela é muito maior.

O que a gente chama de presente? O que é o agora? A gente consegue medir temporalmente o presente, por exemplo. Se eu coloco duas lâmpadas piscando com um intervalo de 0,005 segundos de diferença, o seu cérebro não vai perceber essa diferença. Se eu aumento esse intervalo para 0,15 segundo, você percebe esse intervalo. Isso mostra que o nosso cérebro cria cada presente, cada agora, em média, a cada 100 milissegundos.

E por que isso? Porque é o intervalo razoável para que ele possa fundir tudo o que está acontecendo ao seu redor. A velocidade da luz e a do som são muito diferentes, mas quando você assiste à televisão você recebe isso junto, porque o seu cérebro espera para processar essa diferença e te possibilita criar esse presente.

Tanto para a criança, quanto para o idoso, que tem um cérebro mais lento, o presente deles é maior porque o cérebro processa mais devagar.

Você não precisa criar um cérebro novo, bastar analisar o próprio ser humano em fases de vidas diferentes, para perceber que há, sim, uma variação. Se eu desenvolvo novos sentidos e a gente passa a perceber novos espectros de luz, como o infravermelho ou ultravioleta, o mundo muda completamente.

E isso já está sendo feito. Hoje já é possível criar um sensor e conectá-lo ao seu cérebro. Se a conexão tiver um código neural, um sistema de informações que o seu cérebro possa entender, você passa a enxergar coisas que antes você não via.


Isso não é só uma questão teórica, mas uma questão de quando nós vamos começar a agregar essas perspectivas à nossa realidade. Porque a realidade é um todo. A gente filtra o tanto que é suficiente para a gente. A realidade é complexa, a gente resume, tende a acreditar que ela é só isso, mas se surpreende bastante toda vez que descobre que ela é muito maior.


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