A diferença entre narcisismo e autoestima

A diferença entre narcisismo e autoestima por Andre Kummer
Narciso - Caravaggio

O quadro acima é da autoria de Caravaggio, pintor italiano do sec. XVI.

Nele está Narciso, figura mitológica grega que simboliza o homem belo, apaixonado pela sua própria beleza, debruçado sobre um lago de que reflete sua imagem.

O mito grego conta sua mãe, Liríope, querendo saber o futuro do filho, consultou Tirésias, um cego adivinho, que disse: “Ele viveria muitos anos se não viesse a se conhecer”.

Narciso, já um jovem, era insensível ao amor. Uma ninfa, chamada Eco, por não poder falar e declarar sua paixão, o seguia por todos os lugares para onde ele ia.

Irritado, Narciso desprezou-a rudemente, o que levou Eco a definhar de tristeza até a morte. Enraivecidas, as ninfas pediram à deusa da Justiça que castigasse o belo jovem.

Narciso deparou-se, então, com uma lagoa capaz de refletir sua deslumbrante figura e cumpriu-se a previsão do oráculo: Ao ver-se, apaixonou-se por si mesmo, e maravilhado com a própria imagem, ali permaneceu, contemplando-se, até definhar e morrer. Ao procurarem o rapaz, encontraram apenas uma flor (o narciso) debruçada sobre o lago.

Vamos fazer uma ligação entre as pessoas narcisistas e Narciso?

Narciso acredita que não existe nada de bom à sua volta, a não ser sua própria imagem refletida. Da mesma maneira que Narciso acreditava não precisar de ninguém, as pessoas narcisistas só conseguem enamorar-se de si mesmas e dos que consideram iguais a si mesmos.

Os narcisistas só são capazes de “amar” pessoas perfeitas como eles ou podem se transformar nele mesmo, como reflexo de suas “inumeráveis” qualidades.

Narcisistas escolhem os que demonstram extrema admiração por eles, os que mais parecem coisas que pessoas, por não terem uma identidade definida. Escolhem os que não hesitam em se deixar influenciar pelo sujeito narcísico, passando a funcionar como um mero reflexo do outro, uma mera cópia, onde ficam anuladas as diferenças. Narcisistas detestam os muito diferentes, isso afeta seu orgulho.

Na prática, são pessoas que tendem a desprezar as outras, que julgam serem menores, desnecessárias em sua vida e facilmente substituíveis (como se fossem objetos).

O narcisista pode limpar sua casa não por amor à limpeza, mas para torná-la merecedora de abrigá-lo! Pode ser um ativista político para livrar o palneta (ou sua cidade) da doença e da pobreza e suas consequências, para criar um mundo tão maravilhoso como ele se imagina ser.

Narcisistas esperam ser adorados, e para eles o companheiro deve ser belo: um espelho do que ele é.

Pessoas que se envolvem romanticamente com narcisistas têm dificuldade em entendê-los. Ao mesmo tempo que parecem ter uma necessidade de reconhecimento, atenção e carinho, costumam se transformar em pessoas raivosas e irritadas quando não estão satisfeitas com o que estão recebendo.

Não entendem que ninguém é completo, que ninguém se basta, que pessoas precisam uma das outras, assim, ninguém basta para eles e nunca será suficiente o que derem a eles.

Precisar do parceiroé insuportável. O narcisista prefere que o papel de “necessitar do outro” caiba ao outro ou ao “comum dos mortais”, grupo no qual não se enquadra, e lança mão de vários artifícios, muitas vezes de forma inconsciente, para que o outro termine por ocupar a posição de “inferioridade”, que é a de precisar dos outros, o que ele detesta.

Não é raro quem se queixa de parceiros encantadores nos primeiros contatos e que, de repente, tornam-se frios, inacessíveis, chegando a desaparecer sem dar satisfação.

A pessoa sente a falta deles e se pergunta o que podem “ter feito de errado” (sentimento de culpa).

Poderia se dizer que o narcisista sente desprezo ou/e raiva de quem o decepciona não sendo perfeito (como ele pensa ser).

Na verdade, o narcisismo é uma compensação por sentimentos de baixíssima autoestima e, embora comum, beira o patológico.

O narcisista é capaz de produzir em quem se envolve amorosamente com ele e o frustra, não correspondendo às suas expectativas, outras e maiores frustrações que são, na verdade castigos por o terem decepcionado.

Elogiam, prometem, e depois desaparecem ou dizem ter voltado a uma antiga relação. Suas vítimas sofrem, ficam inseguras e, às vezes, entram até em depressão.

É comum que pessoas com baixa autoestima, as preferidas dos narcisos, sintam esse efeito mais do que as outras, mais confiantes em si mesmas.

Pessoas que se desvalorizam escolhem inconscientemente parceiros narcisistas, assim elas podem vê-los como mais importantes que elas, e estão prontas e desejosas em atender todas as vontades do outro para se sentirem amadas.

Assim está introduzida a noção de baixa autoestima, por meio do pensamento da pessoa em relação a si mesma e ao parceiro: “Eu me dobro perante ti porque vales mais do que eu, que nada valho, a não ser que me digas o contrário.”

Autoestima é uma característica de todas as pessoas que tiveram amor e que sentiram segurança quando crianças, que foram respeitadas e que perceberam que eram admiradas por alguma coisa nelas, ou feita por elas.

Ninguém está livre, no decorrer da vida, de viver momentos difíceis, porém, se existe essa consciência de que se foi desejada, amada e respeitada ela pode ser retomada e promover o otimismo e a coragem de lutar pelo que se deseja.

Infelizmente ninguém tem uma infância perfeita, e alguns têm uma verdadeiramente difícil, então a autoestima precisa ser construída conscientemente na idade adulta, na terapia.

Apenas com autoestima a pessoa se torna capaz e segura para despertar amor e de amar.

O relacionamento amoroso se evidencia por um vínculo que requer sempre dos parceiros a consciência do próprio valor (autoestima) e, por consequência, a consciência do direito de serem amados, e a capacidade de serem generosos.

No mito de Narciso, tanto ele quanto a ninfa Eco são castigados.

A graciosa Eco, sem autoestima, se humilha diante do orgulhoso jovem, seguindo-o, sem ser desejada. Ela definha, seca.

Narciso, por sua soberba e frivolidade, igualmente, definha e morre. Seu corpo não é encontrado. Os dois são punidos com a morte em plena juventude, sem atingir o ideal de vivenciar a reciprocidade no amor.

Nota: Na Psicanálise, o conceito de narcisismo é fundamental e complexo, sendo indispensável à compreensão de vários aspetos da teoria psicanalítica, embora haja, na interpretação do mesmo, divergências da parte de importantes teóricos da psicanálise. Aqui o mito descrito foi inspirado na interpretação do poeta Ovídio (43 AC), autor de Metamorfoses e A Arte de Amar por Thaïs Sá P. Oliveira.