O machismo dentro da comunidade LGBT

O machismo dentro da comunidade LGBTpor Andre Kummer


Machismo é um conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres.

Em um termo mais amplo, o machismo como conceito filosófico e social, crê na inferioridade da mulher, e defende a ideia de que o homem, em uma relação, é o líder superior, na qual protege e é uma autoridade.

Durante o movimento de libertação feminina das décadas de 1960 e 1970, o termo começou a ser usado por feministas para descrever a opressão, a violência e a agressão masculina contra as mulheres. Também é um termo usado para criticar a estrutura patriarcal das relações de gênero.

O conceito de masculinidade hegemônica de R.W. Connell diz que supostos traços femininos em homens (os traços historicamente vistos como femininos entre as mulheres) são considerados indesejáveis, socialmente reprováveis ​​ou desvios.

Com toda essa teoria ficou mais fácil entender porque realmente existe machismo dentro da comunidade LGBT?

Vou dar um exemplo, em uma pergunta, que você certamente já viu em algum desses grupos de facebook: "Você é ativo ou passivo?"  ou "O que você curte?"

Ainda existe muito dentro da comunidade LGBT a idéia de um macho alfa, másculo, ativo, com um orifício anal intocado e um pênis imenso sempre disposto a penetração. Esse tipo é hipervalorizado. Eles recebem todos os likes. Muitos. São os maiores objetos de desejo.

O que tem por detrás disso? O velho e puro machismo.

Alguns homens gays tem uma tremenda ansiedade para encontrar seu macho. Não porque vão amar essa pessoa, mas porque acham que essa estereótipo vai, além de saciá-los sexualmente, oferecer segurança e proteção, porque o pensamento machista assim pressupõem. 

Você pode ser um gay machista, se acredita, de forma romântica, em alguém que o proteja, cuide e sacie, sem perceber que com isso desconsidera a sua própria capacidade de proteger-se, cuidar-se e saciar-se.

Existe uma diferença entre você ter como objeto de desejo um homem viril e dominador e disseminar a ideia de que essa é a forma certa. 

Acreditar que alguém é, ou deve ser, superior na relação, por ter mais adjetivações dadas como masculinas, é machismo, e isso suprime a capacidade de amar "pessoas", pois ama-se um estereótipo.

Uma pessoa que idealiza algo ou alguém em conceitos dualistas como bom, mau, bonito, feio, ativo, passivo, macho e fêmea, entre outros, tem muitas chances de viver frustrada e com raiva porque não existem nada que seja 100% coisa alguma.

O cara que você gostou tem o corpo mais másculo que a academia pode forjar, mas fala como uma gralha rouca: frustração. 
Você ama o cara, se sente protegido, feliz e amado, mas ele não tem a performance sexual e nem o tamanho desejável: frustração.

Essas histórias, que sempre ouvimos por aí, falam da incapacidade de a pessoa viver sem seus objetos de desejo perfeitos e estereotipados. 
Falam da incapacidade de a pessoa conhecer a si mesma.

O processo de autoconhecimento é a investigação de nós mesmos, o entendimento de nossos desejos e motivações inconscientes, uma pesquisa em nós mesmos sobre aquilo que somos, como nos tornamos e que, por fim, pode nos ajudar a pensar como e o que queremos ser. 

É um processo de tomada de consciência das forças psíquicas que agem dentro de nós, e, assim, uma forma de nos tornarmos mais sujeitos de nós mesmos.

Existe muito de subversivo no autoconhecimento. É subversivo ir contra o modo comum de ver as coisas,  que às vezes aceitamos como o modo certo, normal, bom. É subversivo ir contra um mundo doente que categoriza pessoas.

Ser gay, algo muito subversivo alguns anos atrás, foi “subvertido” para que servisse à domesticação e à manutenção do status quo machista. 

Quantos gays estão hoje tranquilamente em suas casas bem decoradas, em um casamento totalmente "heteronormativo" e em nada subvertem esse mundo apodrecido?

Quantos LGBTs continuam hipervalorizando  o padrão machista, mesmo  dentro da comunidade LGBT?

Vou usar a expressão gay ok? Expanda isso em sua mente,  por favor.

Existe uma suposição de que, porque gays não são sexualmente atraídos por mulheres, são menos propensos a serem sexistas ou misógenos. Isto é uma tolice.

Muitos homens gays não apenas são machistas, mas também misóginos: fazem cara de nojo ao falar da genitália feminina, avaliam a aparência das mulheres em detalhes brutais, um "gayzorcismo", como aparece caracterizado em um episódio de "Adorável Psicose". Veja aqui:  https://vimeo.com/110968164

Isso parece um ciúme do poder sexual presumido, afinal a mulher é a "proprietária" "natural" desse homem macho estereotipado.

Nós precisamos ir além disso, porque não há emancipação para os LGBTs sem a libertação universal das mulheres.

Sim, há machismo entre os gays, mas nosso mundo sexista e que é o problema. Nós fomos criados em um mundo podre e binário. 

O machismo é tão inevitável quanto o dióxido de carbono. Ele se infiltra em todos os lugares, e portanto, deve ser desafiado em todos os lugares.