Ninguém está esperando você em casa

Ninguém está me esperando em casa por Andre Kummer
Imagem do Google

É sexta feira. A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? 

Mas a casa que o espera está escura, a televisão desligada e tudo é silêncio. Não há ninguém para abrir a porta, ninguém espera você. 

Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja talvez seja não voltar para casa.

Mas deixe eu lhe dizer uma coisa: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. 

Houve um tempo que eu não podia sequer imaginar ainda estar em casa quando tocasse a musica do Globo Reporter na sexta feira. Entrava em pânico.

Ninguém se lembrou de me convidar para sair. Naquela festa feliz onde imaginava que todos estariam, quem se lembraria? 

A tristeza entrava. 

O remédio era sair, ligar para algum amigo, ir a algum lugar onde poderia encontrar uma turma para ser a alegria da festa.

Vestia-me, saía, ia para a festa… Mas com o tempo percebi que as festas reais não eram iguais às festas imaginadas. 

Uma ilusão que piorou hoje em dia, com as redes sociais parece que todo mundo está se divertindo um monte durante todo o tempo, não apenas naquele momento fotográfico.

Um dia li o livro A chama de uma vela, de Gaston Bachelard.

É um dos livros mais solitários e mais bonitos que já li. 

A chama de uma vela, ao contrário das lâmpadas elétricas, são sempre solitárias. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras.

Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. 

Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão.

Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. Até mesmo o desejo se faz na ausência.

É precisamente na ausência que a proximidade é maior.

Parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de coisas frágeis. Uma vela solitária iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondiam quando havia mais gente na cena.

Bachelard faz uma pergunta que você deve se fazer, como uma meditação:

“Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão?

Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. 

O "estar junto" também pode ser uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos.

Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Nietzsche escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.

Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. 

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne.

Foi quando eu, menino me comparei aos outros meninos da minha idade. Eu era diferente, e entre eles eu não passava de um patinho feio que se compraziam em bicar.

Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil.

Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte.

Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. 

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? 

Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos?

Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja.

Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Adaptação