Gay Life Coach - Depoimento Alaf

Gay Life Coach - Depoimento Alaf para Andre Kummer
Imagem do Google

Foi decidido assim: bangalô (com duas suítes) alugado. Tudo programado para um feriadão ótimo no alto da serra. Uma pausa de tanta praia. Eu já não agüentava mais aquele sol semanal e precisa de algo mais, digamos, atmosfericamente romântico. Tudo dando certo.

Eu já havia caçado informações sobre o local para soltar informações e impressionar minha Flavinha. OK. Ela é geógrafa, mas não quer dizer que ela saiba de todos os detalhes das vegetações e costumes daquela paisagem linda da serra. E acredito que o clima iria até melhorá-la dessa gripe de 2 semanas que já estava deprimindo a coitada.

Ah, e tinha o Paulão, meu amigo que iria “tomar conta da outra suíte” (solteiro, mas com uma lábia capaz de pegar até a mulher do dono do Facebook).

Nós 3 lá, cidadezinha turística no alto da serra, paisagem ótima, chocolate quente, trio de música ao vivo na pracinha, garrafas de vinho. Tudo como manda o figurino digno de um cearense quando quer sair do eixo praia-galera.

Sendo bem sincero, aquele feriadão longe de Fortaleza teria que ocorrer todo certo. Eu tava precisando de um pouco de romance-de-carnaval com a minha Flávia e ter um amigão por perto iria ajudar a deixar o clima mais ameno quando precisasse.

Semana acabando. Feriadão chegando. Tudo sob controle. Paulão já marcando esquema (as maria-academia que ele colecionava) pra ele quando estivesse lá e eu preocupado em cuidar da parte romântica pra Flávia, já que ela estava quase acamada de gripe.

Então fiz um esforço a mais; comprei vinho, aqueles itens de Cestas de Café da Manhã, chocolate branco... Essas coisas. Camisinhas também, claro.

Eu iria de carro com a Flávia e o Paulão (o cara mais indeciso da Terra) disse que iria deixar para última hora a decisão de como iria pra serra. Provavelmente ônibus (e assim o fez).

Para surpresa minha o Paulo anunciou por Whatsapp que já iria levando uma “amiga” nossa (já peguei a moça em outras épocas). Achei legal a ideia de 2 casais de amigos na serra. 

Quando li isso, só imaginei: “Perfeito... A Flávia não vai ter que ficar sozinha quando eu quiser tomar todas com o Paulão”. Hehehe.

O fato é que chegou a tarde de sexta-feira e a Flávia me solta 2 bombas: 1- Ela estava sem condições de viajar por causa da gripe. 2- Ela não iria me perdoar se eu desistisse do passeio da serra por causa dela.

Depois de uma discussão com mais tristeza que revolta, coloquei minha mala no carro. Horas depois chego no bangalô com aquela cara fúnebre e ao mesmo tempo realizado (finalmente pelo menos parte de algo que dependia de mim para planejar deu certo).

Se fosse em outros tempos, eu aproveitaria o feriadão solteiro para catar mocinhas carentes de frio de serra e de calor cearense. Mas apaixonado eu já estava, então o lance seria beber quando o Paulão tivesse tempo. A situação havia sido invertida.

Comunico tudo por áudio (Whatsapp) pro Paulão e, ao vê-lo sozinho no outro quarto do bangalô, ele me explica que a nossa “colega”/esquema dele desistiu de vir porque não queria passar um feriadão num local onde não houvesse outra mulher.

Tudo que era romântico (chocolate, flores) deixei na suíte do Paulo já dizendo que seria bônus pra ele impressionar as nativas da serra. Ele agradeceu abrindo o Jack Daniels e nos sentamos na varanda tomando umas.

Malas ainda feitas. Aquela baita disposição pra arrumar as coisas, né. Já que não havia mulher perto pra impressionar.

Anoitecendo estava, o primeiro Jack Daniels já pelo meio, o whatsapp do Paulo acusando mensagem o tempo inteiro e a gente falando o maior número de asneiras possível que 2 amigos bêbados poderiam falar sem alguém perto pra cortar nosso barato.

Ele nunca bebe. Só toma aqueles lances dele que o deixam gigante de tanto malhar. Então já viu. Qualquer álcool é muito álcool pra ele.
E pra mim, que bebo, também fez efeito rápido porque antes do Jack Daniels, eu já vinha tomando vinho enquanto dirigia de Fortaleza pra serra.

Nas vezes que eu entrava na suíte pra mijar, eu tentava ligar pra Flavinha, mas tava ruim o sinal da operadora do celular. Ligação chamava e ninguém atendia ou dava sinal de fora de serviço.

Mais whisky. Mais conversa animada, conversa séria risadas... Saudade apertando, confesso.

Mas tava legal ali. Afinal, uma das minhas carências tava a de me sentir desfocado do trabalho por mais de 6 horas seguidas.

Não me segurei por muito tempo depois de escutar que o whatsapp do Paulão só anunciava o inteiro chegada de mensagem.
Então concluí que o sinal pro aparelho dele tava rolando. Pedi emprestado; ele deu, fui mijar e telefonar usando o celular dele.

Ele continuou bebendo na varanda do bangalô fazendo cara de paisagem como se tivesse num vídeo-clipe europeu.

Antes de telefonar, chegou outra chamada no whatsapp. Cara, não me segurei, resolvi olhar... Era a continuação do papo do Paulão com o esquema (Carol) que ele iria levar pra serra e que ela deu pra trás de última hora.

Ela, no app, continuava uma série de xingamento pro Paulo.

Falava que o cara era canalha demais, que isso, que aquilo. Que ele não era um homem de palavra e desejando que ele pegasse a puta local mais escrota que destruísse o coração dele.

Entendi porra nenhuma. Mijei. Liguei pra Flavinha que me atendeu de primeira.
Sabe aquele dialeto açucarado de casal apaixonado que ninguém tolera? Pois é esse que usamos na intimidade.

Provavelmente ela tinha tomado injeção de RedBull junto à injeção de anti-alérgico. A voz dela tava ativa, feliz, parecia que tinha ganho na loteria.

Conclusão: Eu iria buscá-la na tarde seguinte. E decidido ficou.

Voltei pro banheiro com cara de felizão já pensando como pedir de volta os chocolates.

Contei pro Paulão já mandando ele abrir o outro Jack Daniels porque eu provavelmente não iria beber muito com a chegada da Flavinha.

Assim ele fez.
E enquanto ele abria e tomava o primeiro gole (sem obrigação pra pensar em copo), lembrei do whatsapp dele, que continuava dando sinal de mensagem que chegava e ele fazendo de conta que não ouvia.

Mandei um: “Tá tudo certo aí no teu zap, bicho?”

“Deve ser a Carol no cio, mas ela não quis vir, azar o dela”

Tomei um gole enquanto e depois ele tomou outro.

Quando eu na minha cama, acordei pra mijar, lá pelas 3 da manhã, bateu uma decisão de ir buscar a Flávia. Lavei o rosto, tranquei a porta da minha suíte e mandei uma mensagem pro whatsapp do Paulo explicando a decisão.

Ao sair, vi aquele corpo dormindo na varanda

Paulão não havia voltado pra suíte dele. Acordei meu brother, que, pra surpresa minha, tava muito sóbrio. Falei que tava saindo e o bicho agarrou meu braço com a força do Hulk...

 “Tu não vai não!”

“Qual é, Paulão? Chego lá em antes de amanhecer. É de boa. Te deixo na pracinha. Deve ter uma galera tomando umas lá.”

“Bicho, eu já falei que tu não vai.”

“Eu vou pegar a patroa e volto, macho. Qual é teu problema?”

“O problema é que se tu for buscar seja lá quem for, eu vou contigo. Mesmo que meu corpo fique aqui. A Carol não veio porque eu furei com ela e não o contrário. Eu não queria te deixar segurando vela aqui. Eu não iria me concentrar. Carol tem tudo o que eu quero. O que eu deveria querer também. Mas só tu tem o que eu preciso. Tu é o único que conseguiu ter o Paulo até hoje. E eu não quero de mais ninguém”.

Silêncio mórbido.

Meia hora depois a gente tava na estrada em direção à Fortaleza pra buscar a Flavinha. Mesmo com música alta tocando pra quebrar o cima tenso, eu podia escutar as lágrimas discretas do Paulão.

Fortaleza ficava mais perto quilômetro a quilômetro. E eu me vi torcendo pra gasolina acabar exatamente ali bem antes.

O som alto também ensurdecia algo mais. Parecia tapar uma inusitada vontade minha que aquela cena ali dentro do carro, só nós dois na estrada, nunca tivesse fim.