Casais felizes também traem

Casais felizes também traem por Andre Kummer
Foto: All Love Is Equal Project

Acreditar que a traição é um sinal de que alguma coisa não estava bem é uma forma de nos tranquilizarmos quando a relação termina. 

Manter um relacionamento feliz nos dias de hoje é um desafio e tanto.

Precisamos prestar cada vez mais atenção às necessidades do outro e também dar conta da nossa própria vida para garantir que estamos construindo algo verdadeiro, com a vontade genuína de sermos felizes até velhinhos. 

Programamos a nossa vida de maneira que nela caibam todos os sonhos – os nossos e os da pessoa que amamos. Procuramos identificar potenciais problemas, evitando que se transformem em coisas irreparáveis. 

Mas será que todo esse esforço nos torna imunes contra a infidelidade?

Os fatores que favorecem o aparecimento de uma terceira pessoa são exatamente os mesmos que levam um casal à rutura. 

É muito provável que escolhamos envolver-nos numa relação extraconjugal se os nossos sentimentos e as nossas necessidades sexuais e afetivas estiverem sendo ignoradas pelo nosso companheiro. 

Acontece que na maioria das vezes a insatisfação conjugal não é alvo de atenção e muito menos de conversas profundas. 

Há pessoas que se sentem incrivelmente sós dentro do casamento mas não param para se dar conta disso, e menos ainda de falar com o parceiro.

Podem passar anos até que “acordem”. Às vezes acordam porque apareceu alguém que mexeu com elas, que as fez sentir coisas que já não sentiam há muito tempo. Que as faz voltar a sentir-se vivas.

Isso resume (quase) tudo

Nem todas as pessoas que conversam comigo depois de terem traído o parceiro me dizem que voltaram a se apaixonar. 

São poucas as que decidiram terminar o casamento para viver com a outra pessoa.

Muitos pedem ajuda para salvar a relação depois de terem sido infiéis e garantem que se sentiam felizes até ao aparecimento de uma terceira pessoa.

Não estavam à procura de nada, não tinham grandes aflições que as pudesse levar a fazer aquela escolha. E que, de repente, eram apanhadas desprevenidas por sentimentos que não esperavam.

De repente a traição, ou a possibilidade dela, ou o fato de se sentir desejada por outro as tira do sono da rotina de uma relação onde não se sente mais importante. Faz com que ela se sinta "viva".

Não tem nada a ver com o companheiro e sim com aquilo que a própria pessoa já não sente há algum tempo.

A maior parte das pessoas que traíram falam que a novidade, a intensidade emocional, sexual e a liberdade associadas à relação extraconjugal funcionou como um terremoto, capaz de abalar os seus valores internos. 

Uma nova paixão, o desejo, a novida de corpo novo a ser descoberto e um ser a ser conhecido. Isso tudo é um turbilhão. Acorda quem estava adormecido.

Algumas pessoas só notam esse adormecimento nesta hora, que vem acompanhada de uma sensação de perda que as faz questionar:

"É só isto que a vida tem para me dar?"

"Existe mais alguma coisa além do que tenho vivido?"

Alguns percebem que não querem viver sempre em um turbilhão. Que não precisam de um novo relacionamento. Entendem, com maturidade, que o novo não vai ser sempre novo.

Percebem que sempre procuram uma relação estável, que as fizesse sentir-se “em casa”, e que garantisse a segurança emocional de ser "para sempre". 

Mas também desejam sentir-se vivas, cheias de desejo, intensidade e  autênticidade. Querem ser curiosas, atrevidas, divertidas e felizes... Na maior parte do tempo possível.

Isso pode ser o início de uma nova fase do relacionamento, onde se descobre a intimidade emocional. 

É a intimidade emocional é que nos faz sentir feliz e vivo.