Submissão

Submissão por Andre Kummer
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Não eu não vou escrever sobre algum tipo de submissão sexual.

Vou falar do beco sem saída em a humanidade está. 

Vou perguntar a você porque ainda tentamos encontrar soluções individuais para problemas que são sistêmicos.

Você já deve ter percebido que a maior parte das pessoas não está tão feliz como aparece nas mídias sociais.

As pessoas aparentam estar felizes. Talvez acreditem que se aparentarem, ou derem pinta de serem felizes, a tal felicidade se aproxime. É um tal código de atração que não tem lógica alguma.

Creio que isso foi importado da neurolinguística e de alguns gurus da positividade que inventaram a técnica nos anos 1990 do "Como se". Sim, é sério, isso era ensinado em um curso, e pagava-se em dólar para aprender. Obviamente quem inventou a técnica deixou de usá-la.

Existe uma ideia fantasiosa de que você atrai tudo na sua vida. Então se você for demitido ou um meteoro cair na sua cabeça não foi acaso ou a implicância do seu chefe: a culpa é sua.

Então você sorri e age como se fosse feliz. Se não fizer isso será criticado e as pessoas pensarão que você é algum tipo de amuleto da má sorte e vão fugir do seu convívio.

Você ficará sozinho e se sentirá culpado, mas ainda assim precisará sorrir.

Veja bem, não estou falando de pessoas "naturalmente" negativas, egocentricas e narcisistas, essas sempre se lamentam, até mesmo se o cabelo não se ajeita.

Estou falando daquelas pessoas que realmente sofrem. Sofrem porque são minorias, sofrem porque não conseguem realizar o que desejam, sofrem porque perderam coisas importantes, porque ficaram sozinhas, perderam a lucidez, a juventude, o sorriso pronto no rosto, perderam a fé e a esperança.

Falo daquelas pessoas que precisam de luto, de consolo, de abraços, de amigos e de proteção.

O desespero dos distúrbios psicológicos causados ​​pela sociedade irracional e desumana, desde a ansiedade até a depressão através da multidão de formas de loucura, vícios, suicídios, etc., deram lugar a um fluxo de psicólogos transformados em minuciosos gerentes de Recursos Humanos especialistas em coaching, gerenciamento de tempo e liderança, que dizem que a responsbilidade de tudo é sua.

Então os desempregados são instados a melhorar suas habilidades e a motivação para encontrar um emprego novamente.  Mas já foram preparados psíquicamente para se conformarem que o  subemprego precário é melhor que o desemprego. 

Igualmente impressionante é a contradição da "importância da formação". Hoje estamos no Brasil com a maior geração jovem e melhor preparado da história, mas sem emprego. 

O problema é que todas essas ideias que nos vendem são produto das relações sociais desgastadas. 

Hoje, do desemprego a obesidade tudo é concebido como resultante da negligência pessoal.

Em tempos onde o Rivotril, um ansiolítico e hipnótico, é o medicamento mais vendido no Brasil, o desafio reside na consciência da necessidade de vencer a batalha da idéia do "como se" e caminhar para a autenticidade em vez da opressão que nos torna submissos e termina por nos enlouquecer.

Para entender a crise que estamos atravessando, como indivíduos e sociedade é preciso ver a nossa escravidão à manipulação psicológica do que é felicidade, que nos reprime a tal ponto que nos tornamos totalmente submissos.

Nesse sentido, denunciar a mentira e a perversões da nova psicologia legitimadora da sujeição a um sistema doente, é vital para continuar com a tarefa de contribuir para construir a sociedade humana do futuro, que precisará varrer da face da Terra, o grande mal que afligem a humanidade hoje: a submissão.