Pirulito que bate bate

Pirulito que bate bate por André Kummer
Vinícius Mane na abertura da novela “Brega e Chique” da Rede Globo em 1987
Em nossa cultura, acredita-se que o homem deve ser o primeiro a expor e manifestar seu desejo, e à mulher cabe aceitar ou não.
Na cabeça da maior parte das pessoas aquele que é penetrado é permissivo. Daí pode vir a ideia de que este pode ser abusado ou violado.
O fato de alguém ser penetrado não faz desse pessoa mais fraca ou passiva. Uma mulher não é frágil por ser penetrada no ato sexual.
Isso também deixou marcas na cultura LGBTQ. Não é incomum as pessoas perguntarem, ou suporem, quem é o homem da relação, para um casal gay.

Um em cima, ativo, forte e dominador X Um embaixo, fraco e dominável.

Desde criança os homens sentem-se seguros sendo ativos, por isso, para o resto da vida, alguns agem como um joão-bobo. Podem levar recusas e voltar para sua posição inicial, sem se abalar.
As mulher, ao contrário, são afetadas por qualquer resposta negativa; uma recusa a coloca facilmente numa autodepreciação depressiva.
É uma herança das expectativas em a mulher, e esse é "um dos" motivos que as mulheres se olham no espelho o tempo todo. Para se certificar que estão de acordo com os padrões de desejo.
Receber uma negativa é pior para quem se sente um "objteto" de desejo. É pior para uma mulher do que para um homem. É pior para uma pessoa sensível do que para um falocêntrico (aqueles que o centro da vida é o própio pênis).
E o pior ainda, o falocêntrico não entende isso e fica se achando.
Esse sem "noção" sequer reconhece que está cometendo uma abuso.
Nas declarações de Harvey Weinstein, Dustin Hoffman ou Kevin Spacey (que assediava rapazes), há um tom arrependido, necessário para serem perdoados, mas, mesmo assim, é óbvio que eles sequer entendem do que estão sendo acusados.
O caso de Harvey Weistein é o mais rico em denúncias porque suas vítimas, tornaram-se estrelas e perderam o medo (justificado) das represálias. Abriram a boca contra o sem noção.
Não dá para expressar melhor a ideia do macho alfa, que não acredita que ele não seja exatamente o que qualquer um/uma está  ansioso para ter.
O estupro é efeito de ódio, e o assédio é efeito do narcisismo que acomete os homens, gays ou heteros, que, conforme diz Contardo Calligaris na sua coluna da Folha, estão agarrados na certeza de que eles e seus pirulitos são a oitava maravilha do mundo.

Para todos os babacas que “se acham”, a melhor dica é começarem a entender que não é bem assim.