O sofrimento no sofá

O sofrimento no sofá por André Kummer

Quando fiz a formação em Yoga com Marcus Schutlz, da ONG DoBem e que fez o documentário Eu maior (assista) acordávamos as 5h da manhã e fazíamos 108 saudações ao sol. 

Quem já fez yoga deve pensar que fazer 108 saudações ao sol é algo impossivel. E quase é. 



Em algum momento você entra em um tipo de transe, o cansaço é tanto que você não pensa e nem sente, e apenas faz.

Então eu entendi o ensinamento contido naquele sofrimento todo.


Entendi como a minha mente processava experiencias de sofrimento.  



Muito antes de se falar em FORÇA, FÉ E FOCO, o que eu tinha era uma tremenda CURIOSIDADE e OUSADIA para ver aonde aquilo ia dar.

Era divertido, e sem saber eu seguia uma das primeiras leis espirituais, segundo Deepack Chopra, o DESAPEGO. Eu não estava, nem nunca estive, focado em chegar ao final, mas em entender o processo.


Hoje eu estreei minha nova bicicleta e fiz 36km. Aos 8 kms as minhas pernas doíam tanto que eu pensei em desistir. Mas eu sabia como funcionava e persisti. Lá pelos 14kms eu parei de sentir as pernas. 


Então coisas incríveis aconteceram em um banho de serotonina. 



Você percebe outras partes do corpo ajudando as pernas. 
Percebi que se eu puxasse o guidão ao invés de me apoiar nele eu iria mais rápido. Também percebi quando os músculos do meu quadril começaram a ajudar os musculos das pernas.


Tudo entrou em sincronia. Braços, ombros, quadril e pernas... E então eu pude olhar a paisagem, sentir o vento, paz e a alegria dos hormônios da vitória. 


Acontece o mesmo em quase todos os processos da vida, incluisive o sofrimento mental. 



Na verdade esse processo existe para que nós possamos entender o sofrimento como uma possibilidade de superação e não tratar o sofrimento como um eterno lamento.


Você não sofre por culpa de algo ou alguém, você sofre porque talvez nunca tenha dúvidado das certezas que tem.



Então o sofrimento vem como o último recurso que o corpo e a mente usam para libertar você.

O sofrimento é algo que podemos transformar, mudando o mundo ou mudando a nós. Como mudar o mundo é uma obra coletiva é melhor começar com a gente mesmo.

A idéia de que certas formas de sofrimento são produtivas, ou pelo menos mais produtivas do que outras, como a lamentação e os discursos de ódio, é uma idéia que parece oposta ao pensamento generalista que diz que sofrimento se combate com conforto e bem estar.

O sofrimento, em todos os níveis, precisa ser erradicado, mas muitas vezes erradicar um sofrimento aniquila a possibilidade de ver a verdade que está gritando para nós através dele.

Quantos artistas, literaturas e capacidades de inventar mundos novos não surgiram com o sofrimento, do desconforto e da insatisfação com o que se vivia consigo, com o mundo e com a linguagem para se operar sobre essa insatisfação.
Está tudo na mente, e é tudo sobre autoconhecimento e sobre tomar o controle de sua vida. E pode ser divertido, porque sofrer mesmo é ficar no sofá.
Já estou programando fazer 70 kms de bike.