Esse amor é irônico, é só irônico

Esse amor é irônico, é só irônico por André Kummer


Os relacionamentos nos trazem muitas expectativas, que queremos acreditar serem certezas.

A primeira certeza que queremos ter é que uma pessoa poderia nos fazer feliz.

Então quero estar com essa pessoa, em vez da outra que me faz infeliz.

Procuramos alguém que vai nos fazer felizes. Tentamos evitar a infelicidade.

Pensamos que nossa vida seria melhor se tivéssemos uma companhia. Se tivéssemos alguém que nos amasse. Seria ótimo alguém que nos olhasse e pudêssemos pensar:

"Que ótimo você querer ficar comigo em vez de olhar para outra direção ou para outra pessoa. Olhe para mim e seja feliz comigo, assim eu ficarei feliz comigo mesmo!"

Parece um jogo de espelhos. Minha expectativa do que você acha do que eu acho que você acha que eu acho.

Por que você pensa assim?

Ficamos realmente confusos nessa sala de espelhos.

Esperamos encontrar a felicidade evitando a infelicidade, e esperamos que alguém faça isso por nós.

Isso é pedir muito da outra pessoa.

Dar essa tarefa para o outro de que ele te faça feliz? E você nem vai pagar por isso?

Ele deve te fazer feliz o tempo todo, todos os dias, de todas as maneiras possíveis, em todas as ligações e mensagens de texto?

Ele deveria entender a "arte dos emojis"?

E como ele pode NÃO fazer isso?

Quanto mais esperamos que essa pessoa nos faça feliz, mais ela poderá nos desapontar. Mas na verdade ela é apenas alguém que também quer ser feliz. É o que a pessoa é. E não sabemos como fazer isso.

Não entendemos como ser felizes.

Mas ainda assim esperamos que essa outra pessoa produza isso em nós.

E quando não faz isso ela nos decepciona.

Mas quem errou foi você mesmo com suas expectativas e certezas.

Eis uma pessoa que é mortal, totalmente impermanente, ela nem existia nesse planeta alguns anos atrás. Então ela nasceu, foi criança, filha de alguém, irmão, irmã de alguém, foi educada, foi para escola, arrumou um trabalho, encontrou seu caminho no mundo e finalmente encontrou você.

E agora você é o que para ela, e ela é o que para você?

Responsável pela sua felicidade? 

Esse ser que é tão frágil, mortal e impermanente quanto você? 

Por mais forte que a pessoa pareça, ou queira parecer, ela é isso mesmo.

Como você pode querer que essa pessoa seja o objeto de suas expectativas e certezas?

Qual as chances disso dar certo?

Quando entendemos o dilema dessa história, o que fazemos é determinar que a minha tarefa é mais importante.do que a sua tarefa.

Eu te amo mais? Você me ama mais? Quem vem primeiro?

Fazemos politicagem com nossos relacionamentos: 

COMO CONSEGUIR QUE VOCÊ FAÇA O QUE EU QUERO PARA MIM?

É inacreditável a manipulação, as expectativas, as exigências. Tudo feito com doçura, às vezes, se for o caso, e se a doçura não funcionar revertemos para toda espécie de comportamento terrivelmente venenoso para conseguir o que queremos e impedir o que não queremos.

Temos um grande problema nas mãos, porque não estamos encontrando uma solução. Não estamos assumindo a responsabilidade de lidar com nossa própria mente.

Esperamos que outra pessoa cuide de nossa felicidade e bem estar, o que é muito arriscado.

Você é o tipo de pessoa que produz esse tipo de relacionamento?

Já notou que cedo ou tarde todos se comportam dessa maneira? Todos os que você conhece acabam se comportando da mesma maneira?

Isso não é um problema da outra pessoa, é um problema seu. Nossa própria determinação social, emocional, física ou "cármica" - se preferir.

Nos deparamos com o mesmo problema inúmeras vezes, de novo e de novo, porque nós é que temos o problema.

Só colocamos o chapéu em pessoas diferentes de tempos em tempos, e mais tarde elas se tornam a mesma pessoa que te desaponta, machuca e abandona, etc...etc...

Por que esses problemas não pertencem a outra pessoa, mas a você.


Lama Tsering, Odsal Ling