Curando uma Traição

Curando uma Traição por André Kummer
David LaChapelle

A pior coisa que pode acontece, e que leva a um trauma de relacionamentos, é a traição. 

Mais do que a dor do amor e dos sonhos perdidos, ela gira em torno de um ato deliberado de alguém que destruiu sua confiança. Essa devastação pode levar anos, e, em alguns casos, uma vida, para curar.

O que torna uma traição dolorosa é que ela envolve engano planejado entre uma pessoa que confiávamos Isto põe em dúvida nossa capacidade de perceber corretamente a realidade ao julgar o caráter de um outro pessoa. 

Uma vez que uma pessoa tenha sido traído por outra, com quem compartilhava uma cama, comida, dinheiro e uma vida, todos os outros realcionamentos amorosos tornam-se potencialmente inseguros. A desesperança em relacionamentos, ou infelizmente chamada "Sindrome de Corno", é causada pelo medo de que esse trauma volte a se repetir.

A pessoa traída sente-se uma idiota que não consegue se proteger de alguém que pensa conhecer tão bem. Então em quem mais ele pode confiar?

Mas traições raramente acontecem do dia para noite. Ela é o produto de uma longa série de pequenos enganos, pretextos, e omissões que, eventualmente, se somam e formam algo muito maior. 

O traidor sempre tem uma racionalização que o livra da culpa. Muitas vezes essa racionalização tem base em algo que é verdadeiro. Então, em sua frustração e raiva ao ser descoberto, ele usa este fato como uma licença para fazer algo que ele percebe ser de igualdade de dano. 

Depois de uma traição pode-se ter paixões, mas se o trauma não for curado e resignificado, a pessoa nunca mais terá um relacionamento de longo prazo tranquilo. Uma semana, um mês, um ano é tudo o que se dará a outra pessoa.

O trabalho de cura de uma traição é ao mesmo tempo simples e complexo. A simplicidade do trabalho a ser feito é que ele gira em torno de um princípio: aceitação. 

- Aceitar que todas as pessoas tem dificuldades.
- Aceitar que a traição é um produto da ferida do traidor e não é culpa do traído.

A dinâmica desta aceitação é o percepção de que a traição tem uma causa entendível e previsível: a ferida emocional.

Quando aceitamos que a traição que temos experimentado é resultado da ferida emocional de uma outra pessoa, nos livramos de projetar a invalidação e a dúvida sobre nós mesmos.

A questão muda de "O que eu fiz para merecer isso?" para "Como eu posso evitar que isso aconteça de novo? "

Aceitação permite-nos passar para prevenção e recuperar um sentido de controle sobre nossas vidas. 

Naturalmente, nós nunca podemos evitar uma traição completamente, mas podemos fazer grandes progressos em diminuir a sua probabilidade, sem sacrificar a nossa esperança em relacionamentos. 

Até agora, falei do traído e traidor como dois indivíduos diferentes. No entanto, na vida real são a mesma pessoa. A pessoa que trai em uma circunstância é também o traída em outra circunstância. 

Diante disso, o trabalho de aceitação assume uma grande proporção. Aceitamos não só que a traição que experimentamos resultou da ferida de outro, mas que a traição feita contra nós foi o resultado de nossas próprias feridas, ocultas por uma vergonha tóxica de ser quem somos: imperfeitos e com um lado sombra.

Essa vergonha tóxica, que gera descontrole e ilusão, só pode ser superada com maturidade e o autoconhecimento, então vamos poder examinar cuidadosamente as partes de nós mesmos que foram previamente escondidas, e veremos que também somos capazes de infligir grande dor em cima de nossos parceiros. 

Nós temos sido tanto agressores quanto vítimas de violências emocionais dentro de nossas relações.

Abandonar a vergonha tóxica significa que não precisaremos mais provar nosso valor para ninguém, e seremos capazes de assumir nossos erros e limitações com integridade. Não ficamos mais cegos, esperando uma validação.

Feito isso, se quisermos ter um novo relacionamento livre de traição, devemos encontrar um parceiro que nunca foi ferido - o que é impossível - ou  um parceiro que de bom grado e ativamente está trabalhando em suas próprias feridas emocionais.

Essa pessoa está consciente de suas limitações, não tenta esconde-las, não se auto engana, não se lamenta, dedilhando seu rosário de sofrimentos na mesa de um bar, não tem vergonha de si mesmo e do seu lado negro e está aberta para o crescimento. 

Essa pessoa confia em si mesmo apesar de tudo. Ela pode ter um relacionamento e não destruí-lo automaticamente. Ela pode escolher um parceiro que a valoriza e não a destrói em troca.

Procure por essa pessoa. Seja essa pessoa.