O Prisioneiro das Máscaras

Imagem de David LaChapelle em O prisioneiro das máscaras de André Kummer
Imagem de David LaChapelle

O título original desse post era outro, mas eu recebi tantos alertas sobre linguagem inadequada que desisti de brigar com o monstro do Google.

Não costumo falar palavrões mas também não sou um moralista com falsos pudores à palavras malditas, e o que ouvi, em uma balada anos atrás, talvez seja mesmo impublicável.

Vou contar...


Eu costumava frequentar um bar em Porto Alegre que se chama Ocidente. É um casarão em uma esquina da Avenida Osvaldo Aranha, de frente para o Parque da Redenção. Não era climatizado e as imensas janelas do segundo andar estavam sempre abertas. Havia um lustre de garrafas de coca-cola na escada, muito Abba, Kylie Minogue e Madonna. Não era exclusivamente um bar gay, mas um mix incrível e maravilhoso.

Na minha primeira vez por lá, isso foi em 2002, lembro que estava com uma gola rolê amarelo gema de ovo que chamava a atenção. Eis que um cara, o gato dos gatos (acho que agora não se usa  mais essa expressão), me olhou e puxou conversa. Papinho besta mas com muitas intenções que nem eram secundárias. De repente ele pediu meu número de telefone e me convidou para um café no outro dia. Trocamos telefone e ele foi embora.

Imediatamente um outro cara se aproximou de mim e me perguntou: “”Esse cara que tu estava conversando pediu teu número e te convidou para um café?” Disse que sim.

“Essa putinha chupadora de cu faz isso com todo mundo. Nunca fica com ninguém aqui, se faz de santa e depois trepa com todo mundo”.

Eu ainda tenho a rolê amarela, e naquele momento minha cara deve ter ficado no mesmo tom.

Obviamente o cara que falou isso deve ter sido “vítima”, ou se sentido vítima, do Dom Juan dos Pampas, e estava ali na minha frente destilando seu veneninho.

Eu nunca tive muita paciência com conversas venenosas. Considero coisa de gente recalcada e sem mais o que fazer.
Lembram minhas tias solteironas - Deus as tenha! - Que sentavam na varanda de casa e falavam de todo mundo que passava na rua. Isso quando elas não estavam esfregando a casa e polindo cada canto. Acho que essa fixação por faxinas encobria algum fetiche com os rodos.

Quem não gosta de um veneninho e uma boa fofoca? Mas convenhamos que não dá para isso ser a única pauta de uma conversa ou o único conteúdo mental de um ser.

Também não tenho muita paciência com tipos previsíveis em baladas, e apesar da propaganda da performance sexual do rapazoilo ser atraente, não atendi o telefone no outro dia.

Considero que ele tem total direito a privacidade da sua exposição como pessoa, mas acreditar que a intimidade de alguém que tem mais de um parceiro sexual por semana é segredo, é no mínimo falta de inteligência, seja em Porto Alegre, Londres, Paris, Milão ou Nova Iorque. Burrice não me é sexualmente atrativo

Lembrei desse fato porque vi o rapazoilo recentemente e continua lindo. Está casado, mas segundo as venenosas de plantão, continua com seus cafés.

No meu trabalho é preciso saber fazer cara de paisagem para muitas coisas. Confesso que às vezes já fiquei tentado em pedir “Como você faz isso?” dada a imensa criatividade dos venenos e de algumas práticas sexuais e relacionamentos que algumas pessoas desenvolvem com uma imaginação de fazer inveja a um Gaudí... E acredito que ainda não vi tudo, mesmo com quase 20 anos de profissão.

Na maior parte das vezes esses comportamentos falam da dificuldade da pessoa viver a suas verdades e desfrutar da intimidade consigo mesmo e com o outro.  Isso mesmo, a intimidade é o prazer de estar consigo e com o outro.

A intimidade vem da nossa capacidade de sermos autêntico e criar vínculos de confiança e não uma cara de paisagem em uma máscara.

Não estou dizendo que há problemas com usar máscaras, porque todos usamos algumas. A questão é você acreditar que é a máscara.

Acreditar que você é aquilo  que se espera que você seja limita a vida terrivelmente. Quando você menos perceber já é prisioneiro de si mesmo e do que disse.

É querer parecer uma santa mas no fundo todo mundo sabe que você não é...

É querer parecer um amigo quando é só mais uma venenosa...

Que máscara te torna um prisioneiro?