O palhaço de Kierkegaard

O palhaço de Kierkegaard por Andre Kummer
Imagem do Google

Há muito tempo atrás houve um incêndio num circo ambulante na Dinamarca.

O palhaço, que já se encontrava vestido e maquilhado para o início do espetáculo, foi para vila mais próxima pedir por ajuda, advertindo de que existia o perigo do fogo se espalhar pelos campos ceifados e ressequidos, com risco iminente para as casas do próprio povoado.

O palhaço correu até à vila e pediu aos moradores que viessem ajudar a apagar o incêndio que estava a destruir o circo.

Mas os habitantes viram nos gritos do palhaço apenas um belo truque de publicidade que visaria levá-los a acorrer em grande número às sessões do circo. Aplaudiam e desatavam a rir.

Diante dessa reação, o palhaço sentiu mais vontade de chorar do que de rir. Fez de tudo para convencer as pessoas de que não estava a representar, de que não se tratava de um truque e sim de um apelo da maior seriedade: estava realmente em causa um incêndio. 

Mas a sua insistência só fazia aumentar os risos; eles achavam que a performance estava excelente.Até que o fogo alcançou de fato aquela vila. Aí já foi tarde, e o fogo acabou por destruir não só o circo, mas também a povoação.

Texto do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard

Ninguém acreditou no palhaço. Ninguém acredita em nada. Até que tudo pegue fogo. 

O que sobrou nessa virada dos tempos onde tudo pega fogo e não sabemos mais para onde correr e no que acreditar? 

Da mesma forma que o Renascimento não pode ser demarcado por um fato histórico, como a noite de ano novo, mas se arrastou por mais de 300 anos de mudanças, precisamos estar preparados para a total falta de referências nos próximos tempos. 

Estamos vivendo, segundo Zygmunt Bauman, o interregnum, um intervalo entre eras, um rei morreu e o novo não foi coroado, o velho sistema morreu e o novo ainda não nasceu. 

Não existem mais referências, mas essa falta de referências pode ser benéfica, se nos tornarmos totalmente responsáveis por nossa própria (re)construção. 


QUE NOVAS QUALIDADES VOCÊ COLOCARIA EM SUA RECONSTRUÇÃO?