As verdades feias e os sonhos impossíveis


Nunca houve um tempo mais fácil de ser gay. Claro, alguns de nós ainda sentem o dedo homofóbico sacudir no nariz. 

Os discursos da família tradicional, dos evangélicos radicais e os linchamentos ainda estão por ai.

As atitudes e os valores sociais com os gays estão mudando para melhor. Os tempos estão mudando definitivamente.

No entanto, no meu trabalho, alguns homens gays falam sobre estarem abatidos, deprimidos, e com vontade de morrer. 

Eles falam sobre a luta constante para encontrar realização pessoal e um amor duradouro. 

Algumas histórias remetem a muito sexo, com diferentes homens em festas exóticas nas melhores localizações ao redor do globo. 

Outros confessam sentir-se velhos, aos trinta e cinco anos, como se a vida apenas fosse útil até os vinte, que já não são deles. 

Outros ainda estão presos em seu próprio mundo de dinheiro, arte, moda, e casas decoradas.

Praticamente todos os homens gays com quem trabalho concordam em uma coisa: 

Não importa o quão a sociedade torna-se mais tolerante, ainda é muito difícil ser um homem gay e uma pessoa verdadeiramente feliz. 

Podemos ter avançado muito, mas algo crítico ainda falta.

Alguns já saíram do armário e não escondem mais aquele "pequeno segredo sujo" sobre si mesmos. 

Mas continuam a esconder o seu verdadeiro eu por trás de uma beleza fabricada.

Ninguém sabe melhor como criar estilo do que os homens gays. Nós decoramos o mundo. Nós decoramos nossas vidas. Nós decoramos nossos corpos. 

Fazemos tudo em um esforço para esconder nosso verdadeiro eu do mundo. Os homens gays são os especialistas em estilo, moda, etiqueta, bodybuilding, arte e design. 

Em cada um desses campos os gays predominam.

Nos especializamos em reformas de todos os tipos e tamanhos. 

Somos especialistas em transformar coisas e pessoas no seu melhor. 

Somos profissionais na remodelação de verdades feias em sonhos possíveis.

Existe realmente um gene gay de criatividade que nós todos herdamos? 

Quando você pensa sobre isso, é realmente plausível que a nossa orientação sexual, de alguma forma também nos dá um talento para cabelo, maquiagem e reorganização da sala de estar?

Acho que não. Parece haver algo mais do que isso. 

Algo sobre a experiência de ser gay que leva a desenvolver habilidades. 

Crescer gay nos obrigou a aprender a esconder realidades feias atrás de uma fachada finamente trabalhada.

Nos escondemos porque aprendemos que esconder é um meio de sobrevivência.

A verdade nua e crua sobre o que somos não era aceitável quando crianças, então aprendemos a esconder ela atrás de uma bela imagem. 

Aprendemos a nos dividir em partes, escondendo o que não era aceitável e exibindo o que era. 

Distraìmos a atenção como um toureiro ondula um manto vermelho diante do touro para distrair a besta para longe do seu corpo. 

Crescemos desativando nossas emoções e sentimentos em um ambiente que nos ensinou o que não era inaceitável para um homem "real".

Com isso nasceu a vergonha. 

Nós prontamente internalizamos esses fortes sentimentos de vergonha em uma crença central: Eu sou falho e errado.

Isso aleijou nossa autoestima e impediu-nos de seguir estágios saudáveis de desenvolvimento como adolescentes. 

Nós fomos consumidos com a tarefa de esconder a nossa verdade para as pessoas do nosso mundo.

Fingimos ser algo que não éramos. Na época parecia a única maneira de sobreviver.

Qualquer pessoa que se aproxima de um homem gay percebe uma aura maravilhosa, alegre, fashion e muito ferida. 

Sobre nossas camadas complexas existe um segredo mais profundo que corrói nossas vidas. 

As sementes deste segredo não foram plantadas por nós, mas por um mundo que não nos entende, que quer nos mudar, e às vezes, é ferozmente hostil conosco.

Não é sobre o quão bom ou ruim somos. 

É sobre a luta que muitos de nós experimentaram crescendo como meninos gays em um mundo que não nos aceita, e por mais que você negue isso deixou marcas profundas por toda vida.

É uma luta contínua como homens gays adultos tentando criar vidas felizes, tentando livrar-se da vergonha.

Esta ilusão que criamos de que deveríamos estar desfrutando a liberdade e gozando de uma vida cheia de belos corpos, festas, sexo e viagens, não é mais satisfatória. 

Em algum lugar surgiu a ideia de que um homem gay feliz tem muito sexo e pelo menos um homem bonito que o ama em todos os momentos.

Onde quer que este "ideal" de homem gay é destaque, como em entretenimento ou publicidade, eles são retratados como viris, musculosos e parecem ter tudo.

Sensibilidade, boa aparência, elegância, e um corpo que deixaria tanto Cleópatra quanto Marco Antônio loucos de desejo.

Praticamente toda a cultura gay é definida por sexo, e como tornar-se desejável e belo.

Quer se trate de um bar gay ou uma revista gay, a mensagem de sexo é onipresente. E não é apenas sexo, mas beleza e glamour.

Qual a verdade? 

Precisamos nos sentir amados. Precisamos de amigos verdadeiros e uma família. Precisamos nos amar. Precisamos de uma auto estima fortalecida e confiante. 

Precisamos nos sentir fortes e as vezes precisamos chorar. Precisamos saber que há alguém neste mundo que realmente nos ama. 

Precisamos amar alguém. Precisamos de uma casa segura, estável e confiável. 

A verdade é que precisamos de todas essas coisas muito mais do que precisamos de sexo.
Velvet Rage